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Ammarus Studio

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por Rafael Fortunato

MASP: por que o museu flutua sobre 74 metros de vão livre

Vão livre de 74 metros do MASP visto da praça, com os pórticos de concreto de Lina Bo Bardi na Avenida Paulista
MASP (1957-68), Avenida Paulista, São Paulo. Lina Bo Bardi.

O vão livre do MASP não nasceu de um gesto de ousadia. Nasceu de uma cláusula jurídica.

Quem passa na Avenida Paulista e para embaixo do museu costuma ouvir a mesma explicação: Lina Bo Bardi queria impressionar. Não é bem isso. Ela estava obedecendo a uma restrição que herdou junto com o terreno — e transformou a obrigação no projeto inteiro.

O terreno foi doado com uma condição: não tapar a vista

O lote onde está o museu era o Belvedere Trianon. Joaquim Eugênio de Lima, o loteador que abriu a Avenida Paulista, doou a área à cidade impondo uma condição explícita: a vista do alto da Paulista para o vale da Nove de Julho e para o centro de São Paulo tinha de ser preservada.

Qualquer edifício convencional ali violaria a cláusula. Um bloco térreo ocupando o terreno tapa a vista por definição.

Lina fez o que quase ninguém faz diante de uma restrição de projeto: em vez de contorná-la, adotou-a como partido. Suspendeu o museu inteiro no ar e devolveu o chão à cidade.

A vista continua lá. Você pode atravessar o vão de ponta a ponta e olhar o vale sem entrar no museu nem pagar nada.

Quatro pilares, duas vigas, 74 metros

A descrição que circula por aí oscila entre “dois pilares” e “quatro pilares”. As duas estão meio certas, e é isso que confunde.

São quatro pilares de concreto, dois de cada lado. Cada par é unido por uma viga que atravessa todo o edifício — e as duas vigas passam por cima da laje de cobertura, aparecendo no topo do prédio. Cada conjunto de dois pilares mais a viga forma um pórtico. Daí a leitura de “dois pórticos” ou “quatro pilares”: é a mesma estrutura, contada de dois jeitos.

Entre os apoios existem 74 metros sem nada. Nenhum pilar intermediário, nenhuma parede, nada tocando o chão no meio do vão. Na inauguração, era o maior vão livre em concreto do mundo num edifício suspenso.

O volume envidraçado paira a oito metros do piso da praça.

O andar de baixo não se apoia. Ele fica pendurado.

Esta é a parte que raramente aparece nas explicações e é a mais bonita da solução.

O bloco suspenso tem dois pavimentos. O de cima, onde fica a pinacoteca, se apoia nas grandes vigas protendidas. O de baixo, o salão de exposições temporárias, não se apoia em nada: ele está pendurado por tirantes que descem das vigas.

É por isso que o pé-direito do vão é limpo daquele jeito. Se o pavimento inferior tivesse apoios próprios, haveria estrutura descendo no meio do vazio, e o vazio deixaria de ser vazio.

Vale registrar que metade do museu está enterrada. Sob a praça existe um bloco com hall cívico, teatro, biblioteca e restaurante, visível pelo lado da Nove de Julho. O prédio que parece leve tem um contrapeso escondido embaixo do chão.

O engenheiro tinha patente própria de concreto protendido

A estrutura foi desenvolvida com José Carlos de Figueiredo Ferraz, que aplicou ali um sistema de concreto protendido de patente própria.

Vale a pena entender o que a protensão faz, porque é o que torna os 74 metros possíveis. Concreto resiste muito bem à compressão e muito mal à tração. Numa viga vencendo um vão grande, a face inferior trabalha tracionada — e é ali que ele racha.

Na protensão, cabos de aço dentro da viga são esticados e ancorados antes de a peça entrar em carga. Eles comprimem o concreto previamente. Quando o carregamento chega e tenta tracionar a peça, primeiro precisa vencer essa compressão que já estava lá. Na prática, a viga começa a vida com uma reserva de folga.

Sem isso, uma viga de concreto armado comum precisaria ser alta e pesada demais para vencer 74 metros — e o efeito de leveza que era o ponto do projeto desapareceria.

Onze anos de obra e uma rainha na inauguração

O projeto começou em 1957. O museu só foi inaugurado em 7 de novembro de 1968, com a rainha Elizabeth II e o príncipe Philip presentes na cerimônia.

Mais de dez anos entre o desenho e a fita cortada. O edifício foi tombado pelo IPHAN em 2003.

O vermelho não é de 1968

A cor que virou identidade visual do museu, estampa de camiseta e cartão-postal da cidade não estava lá na inauguração.

Por mais de vinte anos o MASP foi um edifício de concreto aparente, cinza. O vermelho só foi aplicado nos pórticos em 1990.

Ou seja: a imagem que todo mundo tem do MASP na cabeça é mais nova que o próprio MASP.

O que sobrou disso: uma praça que ninguém paga para usar

A consequência urbana da cláusula é maior que a proeza estrutural.

Debaixo do museu existe uma praça coberta, sombreada, sem catraca e sem bilheteria, no ponto mais caro da cidade. Ali acontece feira de antiguidades, manifestação, show, protesto, encontro marcado. Nenhuma dessas coisas estava no programa.

Lina não projetou uma praça. Projetou um vazio, e a cidade fez o resto.

É o argumento mais forte a favor de encarar restrição de projeto como matéria-prima e não como inimigo. A mesma lógica aparece na Casa Milà, em que Gaudí usou a estrutura para libertar a planta, e na Sagrada Família, em que ele resolveu o cálculo com maquetes de cordas.

Perguntas frequentes sobre o MASP

Qual é o tamanho do vão livre do MASP?

São 74 metros entre os apoios, sem nenhum pilar intermediário. O volume do museu fica suspenso a oito metros do piso da praça.

Por que o MASP foi construído suspenso?

Porque o terreno do antigo Belvedere Trianon foi doado à cidade sob a condição de que a vista do alto da Avenida Paulista para o centro fosse preservada. Suspender o edifício foi a forma de cumprir a exigência sem abrir mão do programa do museu.

O MASP tem dois ou quatro pilares?

Quatro pilares, agrupados em dois pórticos — cada par de pilares é unido por uma grande viga de concreto protendido que atravessa o edifício e aparece acima da cobertura.

Quem projetou o MASP?

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, com projeto estrutural do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz. O projeto é de 1957 e a inauguração aconteceu em 1968.

O MASP sempre foi vermelho?

Não. A estrutura ficou em concreto aparente por mais de duas décadas. O vermelho dos pórticos foi aplicado em 1990.

O que é concreto protendido?

É o concreto em que cabos de aço são tracionados e ancorados na peça antes da entrada em carga, comprimindo previamente o material. Como o concreto resiste mal à tração, essa compressão inicial permite vencer vãos muito maiores com peças mais esbeltas.

Fontes

Descrição estrutural, tirantes e bloco enterrado: Enciclopédia Itaú Cultural — Edifício do MASP. Cláusula da doação, datas e tombamento: Museu de Arte de São Paulo.


No Ammarus Studio, a gente trabalha exatamente nesse intervalo entre a ideia e a obra. Renderizações, plantas humanizadas e animações que deixam o projeto existir antes do primeiro tijolo — para o cliente entender, aprovar e se emocionar antes de assinar.

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