A casa em que Lina Bo Bardi não derrubou a árvore

Antes do MASP, antes do SESC Pompeia, Lina Bo Bardi construiu uma casa para si mesma. Foi o primeiro projeto que ela viu sair do papel no Brasil: a Casa de Vidro, erguida entre 1950 e 1951 no Morumbi, em São Paulo, para ela e o marido, o crítico de arte Pietro Maria Bardi.
Na época, o Morumbi ainda era praticamente mata atlântica — sem asfalto, sem vizinhos, só floresta. Em vez de abrir uma clareira e construir no chão, Lina apostou em um volume suspenso sobre pilotis bem finos, com um grande bloco envidraçado voltado inteiramente para a paisagem ao redor.
O detalhe mais bonito da casa está no pátio interno: havia uma árvore ali antes da construção, e em vez de derrubá-la, Lina desenhou a casa ao redor dela, deixando o tronco atravessar o espaço. A transparência das fachadas de vidro praticamente apaga o limite entre o interior da casa e a mata em volta — uma leitura tropical e afetiva do modernismo europeu que ela trouxe da Itália.
Décadas depois, o bairro cresceu, a mata virou cidade, e a casa se tornou o oposto do que era originalmente: um pedaço de floresta preservada em meio ao concreto. Em 1990, ali nasceu o Instituto Bardi, que hoje mantém a casa aberta para visitação.
É um bom lembrete de que a mesma arquiteta que décadas depois pensaria um museu inteiro suspenso no ar começou pensando em morar perto de uma árvore.


